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Remédio ou fisioterapia pra dor nas costas: o que tratar primeiro?
Pra dor nas costas comum, as diretrizes do ACP (2017), do NICE e da OMS (2023) põem o tratamento sem remédio em primeiro lugar: exercício, orientação pra seguir ativo e terapia manual junto com exercício. Remédio entra como apoio curto, com orientação médica. Paracetamol não superou o placebo, anti-inflamatório ajuda pouco e opioide não venceu o placebo na dor aguda. Febre, perda de força, formigamento que avança ou alteração de urina e fezes pedem médico já.
Revisado por Dr. Eduardo Gentil · CREFITO-11 387451-F· revisado em setembro de 2026Lado a lado
| Critério | Remédio | Fisioterapia |
|---|---|---|
| Lugar nas diretrizes | Remédio: Segunda linha. No ACP 2017, entra se a pessoa quiser remédio na dor aguda ou se o tratamento sem remédio não bastou na dor crônica. | Fisioterapia: Primeira linha. Exercício e orientação pra seguir ativo aparecem como escolha inicial no ACP, no NICE e na OMS. |
| O que faz | Remédio: Baixa a dor enquanto o efeito dura. | Fisioterapia: Trabalha força, mobilidade e a volta às atividades, com exercício que continua em casa. |
| Na dor aguda | Remédio: Paracetamol igual ao placebo no tempo de recuperação. Anti-inflamatório com efeito pequeno. Opioide sem diferença do placebo em 6 semanas. | Fisioterapia: Orientação pra seguir ativo tem pequena vantagem sobre repouso na cama em dor e função. |
| Na dor crônica | Remédio: Anti-inflamatório com efeito pequeno e evidência de baixa certeza. Opioide não foi melhor que remédio não opioide em 12 meses. | Fisioterapia: Exercício reduz a dor em comparação a nenhum tratamento, cuidado usual ou placebo (Cochrane 2021, certeza moderada). |
| Segurança | Remédio: Anti-inflamatório pede atenção a estômago, fígado, rim e coração (NICE). A OMS não estende a recomendação dele a idosos. Relaxante muscular tem segurança incerta. | Fisioterapia: A carga do exercício sai da avaliação e muda conforme a resposta de cada consulta. |
| Quem indica | Remédio: Médico. Remédio por conta própria fica fora do que as diretrizes avaliaram. | Fisioterapia: Fisioterapeuta com CREFITO, que faz a avaliação físico-funcional, prescreve o tratamento e dá alta (Resolução COFFITO 80/1987). |
| Quando faz sentido | Remédio: Dor forte que impede de dormir ou de se mexer, por pouco tempo, pra permitir o movimento. | Fisioterapia: Dor nas costas sem sinal de alerta, aguda ou crônica, desde o começo. |
| Com sinal de alerta | Remédio: Médico primeiro, sem esperar o remédio fazer efeito. | Fisioterapia: Médico primeiro. A fisioterapia começa depois da liberação. |
O que as diretrizes mandam fazer primeiro na dor nas costas?
As três diretrizes mais usadas no mundo concordam no ponto principal. O Colégio Americano de Médicos (ACP), em 2017, parte de um fato: a maioria das pessoas com dor lombar aguda melhora com o tempo, com qualquer tratamento. Por isso orienta começar sem remédio, com calor local, massagem, acupuntura ou manipulação. Na dor crônica, a escolha inicial também é sem remédio: exercício, reabilitação multidisciplinar, ioga, tai chi, exercício de controle motor, terapia cognitivo-comportamental e outras.
O NICE, do sistema de saúde inglês, pede informação sobre a dor e estímulo pra continuar as atividades normais, considera exercício em grupo e aceita terapia manual (manipulação, mobilização ou técnicas de tecidos moles) só dentro de um pacote que inclua exercício. A OMS, na diretriz de 2023 pra dor lombar crônica, recomenda educação, exercício, manipulação da coluna, massagem, terapia cognitivo-comportamental e anti-inflamatório.
A série da Lancet sobre dor lombar, de 2018, resume a distância entre o que se sabe e o que se faz: pouco uso dos tratamentos de primeira linha e uso alto demais de exame de imagem, repouso, opioide, injeção na coluna e cirurgia.
Paracetamol funciona pra dor lombar?
Os melhores estudos dizem que não. Num ensaio clínico australiano publicado na Lancet em 2014, pessoas com dor lombar aguda tomaram paracetamol em horário fixo, paracetamol quando precisassem ou placebo. A mediana do tempo até a recuperação ficou em 17, 17 e 16 dias. Sem diferença.
Uma revisão sistemática publicada no BMJ em 2015, só com ensaios controlados por placebo, concluiu que o paracetamol não reduz a intensidade da dor nem a incapacidade na dor lombar. O NICE orienta não oferecer paracetamol sozinho pra dor lombar.
Anti-inflamatório e relaxante muscular resolvem dor nas costas?
O anti-inflamatório ajuda um pouco. Na revisão Cochrane de 2020 sobre dor lombar aguda, ele foi um pouco melhor que o placebo pra dor de curto prazo e incapacidade, com efeito pequeno e provavelmente sem relevância clínica. Na revisão Cochrane de 2016 sobre dor crônica, o efeito também foi pequeno, com evidência de baixa certeza.
Por isso o NICE aceita considerar o anti-inflamatório, mas na menor dose que funcione, pelo menor tempo possível, levando em conta estômago, fígado, rim, coração e idade. A OMS recomenda o anti-inflamatório na dor lombar crônica, mas não estende essa recomendação a idosos.
Sobre o relaxante muscular, uma revisão publicada no BMJ em 2021 encontrou evidência de muito baixa a baixa certeza de uma redução de dor pequena, sem importância clínica, nas duas primeiras semanas. Os autores concluem que há incerteza considerável sobre eficácia e segurança.
Opioide, corticoide e remédio pra nervo servem pra dor nas costas?
O opioide, remédio da família da morfina, é o caso mais claro. No ensaio OPAL, publicado na Lancet em 2023 com 347 pessoas com dor lombar ou cervical aguda, o opioide não reduziu a dor mais que o placebo em 6 semanas, e a constipação foi mais comum no grupo do opioide. No ensaio SPACE, publicado no JAMA em 2018 com dor crônica nas costas, quadril ou joelho, o opioide não melhorou a função mais que remédios não opioides em 12 meses, e a intensidade da dor ficou melhor no grupo sem opioide.
O NICE orienta não oferecer opioide na dor lombar crônica e só considerar um opioide fraco na dor aguda se o anti-inflamatório não puder ser usado ou não tiver funcionado. A OMS coloca o opioide entre as intervenções que não devem entrar no cuidado de rotina da dor lombar crônica. O ACP deixa o opioide como última opção, depois que o resto falhou.
Pra dor lombar, o NICE também orienta não oferecer antidepressivos nem anticonvulsivantes, os chamados remédios pra dor de nervo. Na ciática, orienta não oferecer gabapentinoides, outros anticonvulsivantes, corticoide oral nem benzodiazepínicos, porque não há benefício geral e há evidência de dano. Num ensaio publicado no JAMA em 2015, a prednisona na ciática por hérnia de disco melhorou um pouco a função, não melhorou a dor e teve mais efeitos adversos. O ACP aceita a duloxetina como segunda linha na dor crônica: é uma das decisões que cabem ao médico.
O que a fisioterapia faz pela dor nas costas?
A fisioterapia é onde ficam os tratamentos que as diretrizes põem em primeiro lugar. Na revisão Cochrane de 2021 sobre dor lombar crônica, o exercício provavelmente reduz a dor em comparação a nenhum tratamento, cuidado usual ou placebo, com evidência de certeza moderada. O efeito sobre a função foi menor.
Na Fisio Gentil, a consulta de fisioterapia dura 40 minutos e começa pela avaliação: como a dor muda com o movimento, a força, a mobilidade e o que a pessoa precisa voltar a fazer. Daí sai o plano, com exercício dosado, terapia manual quando cabe e orientação pra casa. A carga é revista a cada consulta.
Quando a dor nas costas precisa de médico antes de tudo?
Alguns sinais mudam a ordem e mandam pro médico ou pro pronto-socorro antes de qualquer tratamento. A fisioterapia só começa depois da avaliação médica.
Se o médico já receitou um remédio, siga a orientação dele e converse com ele antes de mudar a dose ou parar. Remédio e fisioterapia podem andar juntos, e o fisioterapeuta precisa saber o que você toma.
- Febre junto com a dor nas costas.
- Perda de força numa perna ou no pé.
- Formigamento ou dormência que avança.
- Perda de controle da urina ou das fezes.
- Dor depois de queda, acidente ou pancada forte.
- Dor noturna que não cede com nenhuma posição.
- Emagrecimento sem motivo, ou histórico de câncer.
Quando cada um costuma fazer mais sentido
- Remédio
- Como apoio curto, com orientação médica, quando a dor está forte a ponto de impedir o sono ou o movimento. Anti-inflamatório na menor dose e pelo menor tempo, como orienta o NICE. Paracetamol sozinho e opioide ficam fora da primeira escolha nas diretrizes. Com sinal de alerta, médico primeiro, sempre.
- Fisioterapia
- Como primeira escolha na dor nas costas comum, aguda ou crônica, sem sinal de alerta, que é o que ACP, NICE e OMS recomendam. Também pra quem já usa remédio e sente a dor voltar quando o efeito passa: o plano de exercício entra junto com o acompanhamento médico.
Perguntas frequentes
Posso fazer fisioterapia tomando remédio pra dor?
Pode. Conte ao fisioterapeuta quais remédios você usa e em que dose. Mudar ou parar o remédio é conversa com o médico que receitou.
Fisioterapeuta pode receitar remédio pra dor nas costas?
Não. A Resolução COFFITO 80/1987 dá ao fisioterapeuta a avaliação físico-funcional e a prescrição das técnicas próprias da fisioterapia. Remédio é com o médico.
Dor nas costas passa sozinha?
Muitas vezes melhora. Numa meta-análise publicada no CMAJ em 2012, quem tinha dor lombar aguda ou persistente melhorou bastante nas primeiras seis semanas, e depois a melhora ficou mais lenta. A série da Lancet de 2018 lembra que a volta da dor é comum. Com sinal de alerta, não espere.
Injeção pra dor nas costas é melhor que comprimido?
Pra dor lombar comum, o NICE orienta não oferecer injeção na coluna. A comparação entre infiltração e fisioterapia está em outra página desta série.
Preciso de raio-X ou ressonância antes de tratar a dor nas costas?
Na maioria dos casos, não. O NICE orienta não pedir imagem de rotina fora do especialista, e uma revisão publicada na Lancet em 2009 mostrou que a imagem imediata, sem sinal de doença grave, não melhorou dor nem função.
Quanto tempo posso tomar anti-inflamatório pra dor lombar?
O NICE orienta a menor dose que funcione pelo menor tempo possível, com atenção ao risco de estômago, fígado, rim e coração. Se a dor pede remédio por semanas, é hora de rever o tratamento com o médico.
Existe tratamento pra dor lombar sem remédio?
Existe, e é o que as diretrizes indicam primeiro: exercício, orientação pra seguir ativo, e terapia manual junto com exercício. A OMS inclui também educação sobre a dor e terapia cognitivo-comportamental.
De onde vem cada afirmação
- Qaseem, A. et al. (2017). Noninvasive Treatments for Acute, Subacute, and Chronic Low Back Pain: A Clinical Practice Guideline From the American College of Physicians. Annals of Internal Medicine. Diretriz do ACP: começar sem remédio na dor aguda e crônica; anti-inflamatório ou relaxante se a pessoa quiser remédio; opioide como última opção.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE) (2016 (atualizada em 2020 e 2026)). Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59). NICE. Recomendações 1.1.4, 1.2.1, 1.2.2, 1.2.7, 1.2.16, 1.2.22 a 1.2.30: continuar ativo, exercício, terapia manual só com exercício, não oferecer paracetamol sozinho, opioide na dor crônica, antidepressivo e anticonvulsivante.
- Organização Mundial da Saúde (2023). WHO releases guidelines on chronic low back pain. OMS (comunicado oficial, 07/12/2023). O que a diretriz da OMS recomenda (educação, exercício, manipulação, massagem, TCC, anti-inflamatório) e o que não recomenda na rotina (cintas, tração, opioide).
- Briggs, A. M.; Sumi, Y.; Banerjee, A. (2025). The World Health Organization guideline for non-surgical management of chronic primary low back pain in adults: implications for equitable care and strengthening health systems globally. Global Health Research and Policy. A recomendação da OMS a favor do anti-inflamatório não se estende a idosos.
- Foster, N. E. et al. (2018). Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. The Lancet. Pouco uso da primeira linha e uso alto demais de imagem, repouso, opioide, injeção e cirurgia.
- Williams, C. M. et al. (2014). Efficacy of paracetamol for acute low-back pain: a double-blind, randomised controlled trial. The Lancet. Paracetamol em horário fixo ou quando precisar não mudou o tempo de recuperação em relação ao placebo.
- Machado, G. C. et al. (2015). Efficacy and safety of paracetamol for spinal pain and osteoarthritis: systematic review and meta-analysis of randomised placebo controlled trials. BMJ. Paracetamol não reduz intensidade da dor nem incapacidade na dor lombar.
- van der Gaag, W. H. et al. (2020). Non-steroidal anti-inflammatory drugs for acute low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews. Anti-inflamatório um pouco melhor que placebo na dor aguda, com efeito pequeno e provavelmente sem relevância clínica.
- Enthoven, W. T. M. et al. (2016). Non-steroidal anti-inflammatory drugs for chronic low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews. Anti-inflamatório com efeito pequeno na dor crônica, evidência de baixa certeza.
- Cashin, A. G. et al. (2021). Efficacy, acceptability, and safety of muscle relaxants for adults with non-specific low back pain: systematic review and meta-analysis. BMJ. Relaxante muscular: redução de dor pequena, sem importância clínica, e incerteza considerável sobre eficácia e segurança.
- Jones, C. M. P. et al. (2023). Opioid analgesia for acute low back pain and neck pain (the OPAL trial): a randomised placebo-controlled trial. The Lancet. Opioide não reduziu a dor mais que placebo em 6 semanas na dor lombar e cervical aguda.
- Krebs, E. E. et al. (2018). Effect of Opioid vs Nonopioid Medications on Pain-Related Function in Patients With Chronic Back Pain or Hip or Knee Osteoarthritis Pain: The SPACE Randomized Clinical Trial. JAMA. Opioide não foi melhor que remédio não opioide pra função em 12 meses.
- Goldberg, H. et al. (2015). Oral steroids for acute radiculopathy due to a herniated lumbar disk: a randomized clinical trial. JAMA. Prednisona na ciática melhorou pouco a função, não melhorou a dor e teve mais efeitos adversos.
- Hayden, J. A. et al. (2021). Exercise therapy for chronic low back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews. Exercício provavelmente reduz a dor na lombalgia crônica frente a nenhum tratamento, cuidado usual ou placebo.
- da C Menezes Costa, L. et al. (2012). The prognosis of acute and persistent low-back pain: a meta-analysis. CMAJ. Melhora forte nas primeiras seis semanas, mais lenta depois.
- Hartvigsen, J. et al. (2018). What low back pain is and why we need to pay attention. The Lancet. A volta da dor lombar é comum.
- Chou, R. et al. (2009). Imaging strategies for low-back pain: systematic review and meta-analysis. The Lancet. Imagem imediata sem sinal de doença grave não melhorou dor nem função.
- Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) (1987). Resolução COFFITO nº 80, de 9 de maio de 1987. COFFITO. Competência do fisioterapeuta pra diagnóstico fisioterapêutico (avaliação físico-funcional), prescrição das técnicas da fisioterapia e alta.
- Finucane, L. M. et al. (2020). International Framework for Red Flags for Potential Serious Spinal Pathologies. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. Referência internacional sobre os sinais de alerta de doença grave na coluna.
Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação de um profissional.
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