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Infiltração ou fisioterapia: qual tratar primeiro?

Na dor lombar comum, o NICE orienta não oferecer infiltração na coluna, e a revisão Cochrane não achou evidência suficiente pra usá-la. Na ciática aguda e forte, a injeção epidural pode ser considerada, com ganho pequeno e curto. Na artrose de joelho, a fisioterapia teve menos dor e melhor função em um ano que a infiltração de corticoide. No ombro, as duas empataram em um ano. Fisioterapia primeiro; infiltração é decisão médica pontual.

Lado a lado

Infiltração ou fisioterapia: qual tratar primeiro?: comparação lado a lado
CritérioInfiltraçãoFisioterapia
O que éInfiltração: Injeção de corticoide, anestésico ou outra substância na articulação, no tendão ou perto do nervo. Indicada e aplicada por médico.Fisioterapia: Avaliação, exercício dosado, terapia manual e orientação, feitos por fisioterapeuta com CREFITO.
Dor lombar comumInfiltração: NICE: não oferecer injeção na coluna. Cochrane: evidência insuficiente pra usar.Fisioterapia: Exercício é primeira linha no ACP, no NICE e na OMS. Terapia manual só junto com exercício (NICE).
CiáticaInfiltração: Epidural com corticoide: pouco melhor que placebo na dor da perna a curto prazo, sem ganho duradouro nem menos cirurgia. NICE: considerar na ciática aguda e forte.Fisioterapia: Plano pela avaliação, com acompanhamento de força e sensibilidade da perna. Piora neurológica volta pro médico.
Estenose de canalInfiltração: Corticoide epidural com anestésico não foi melhor que só anestésico em 6 semanas (NEJM 2014). NICE: não usar epidural nesse caso.Fisioterapia: Plano conservador definido na avaliação, junto com o acompanhamento médico.
Artrose de joelhoInfiltração: Corticoide a cada 3 meses por 2 anos: mais perda de cartilagem que soro e dor igual (JAMA 2017).Fisioterapia: Menos dor e melhor função em um ano que a infiltração de corticoide (NEJM 2020).
Ombro (síndrome do impacto)Infiltração: Melhora parecida com a da fisioterapia em um ano, com mais uso de serviços de saúde depois (Annals 2014).Fisioterapia: Mesma melhora em um ano, com menos uso de serviços de saúde ligados ao ombro.
Cotovelo de tenistaInfiltração: Melhor em 6 semanas, com volta frequente da dor depois (BMJ 2006; Lancet 2010).Fisioterapia: Resultado melhor que a injeção no longo prazo, no mesmo ensaio.
Riscos conhecidosInfiltração: Na epidural, eventos raros e graves: perda de visão, AVC, paralisia e morte. A FDA exige o alerta na bula desde 2014.Fisioterapia: A carga do exercício é ajustada a cada consulta conforme a resposta.
Quem decideInfiltração: Médico, depois de avaliar o caso.Fisioterapia: Fisioterapeuta, que encaminha ao médico diante de sinal de alerta.

Infiltração na coluna resolve dor lombar?

Pra dor lombar comum, sem dor que desce pela perna, a resposta das diretrizes é não. O NICE, do sistema de saúde inglês, tem uma recomendação curta: não oferecer injeção na coluna pra tratar dor lombar. A revisão Cochrane sobre injeção na dor lombar subaguda e crônica concluiu que não há evidência suficiente pra apoiar esse uso, com a ressalva de que algum subgrupo específico talvez se beneficie.

A série da Lancet sobre dor lombar, de 2018, cita a injeção na coluna entre os tratamentos usados demais, ao lado de imagem, repouso, opioide e cirurgia, enquanto exercício e orientação, que são a primeira linha, ficam subusados.

Pra dor lombar crônica que não melhorou com tratamento sem cirurgia, o NICE aceita encaminhar pra avaliação de denervação por radiofrequência, e só depois de uma resposta positiva a um bloqueio diagnóstico. É procedimento de especialista, pra um grupo selecionado.

Infiltração pra ciática e hérnia de disco vale a pena?

Aqui a infiltração tem um lugar, mas pequeno. O NICE aceita considerar a injeção epidural de anestésico com corticoide na ciática aguda e forte. A revisão Cochrane de 2020 sobre dor ciática encontrou que ela provavelmente é um pouco melhor que placebo na dor da perna a curto prazo, com efeito que talvez nem seja considerado importante por pacientes e médicos.

Uma revisão publicada no Annals of Internal Medicine em 2015 foi na mesma linha: alívio imediato pequeno, abaixo do mínimo considerado relevante, sem benefício mais longo e sem reduzir o risco de cirurgia. Na estenose do canal vertebral, um ensaio publicado no NEJM em 2014 não viu diferença, em 6 semanas, entre corticoide com anestésico e só anestésico. O NICE orienta não usar epidural nesse caso.

Infiltração no joelho estraga a cartilagem?

Num ensaio publicado no JAMA em 2017, pessoas com artrose de joelho receberam corticoide ou soro na articulação a cada 3 meses, por 2 anos. O grupo do corticoide perdeu mais volume de cartilagem, e a dor ficou igual nos dois grupos. Os autores concluíram que os achados não apoiam esse tratamento na artrose sintomática do joelho.

Em 2020, o NEJM publicou a comparação direta: fisioterapia contra infiltração de corticoide na artrose de joelho. Em um ano, o grupo da fisioterapia tinha menos dor e menos limitação que o grupo da infiltração.

No ombro e no cotovelo, infiltração ou fisioterapia?

No ombro com síndrome do impacto, um ensaio publicado no Annals of Internal Medicine em 2014 comparou injeção de corticoide com fisioterapia manual. Os dois grupos melhoraram cerca de metade da incapacidade e mantiveram isso em um ano, sem diferença entre eles. O grupo da fisioterapia usou menos serviços de saúde ligados ao ombro no ano seguinte.

No cotovelo de tenista, a injeção de corticoide funciona rápido e cobra depois. No ensaio publicado no BMJ em 2006, ela foi melhor em 6 semanas, mas a maioria dos que melhoraram voltou a piorar, e a fisioterapia teve resultado melhor no longo prazo. Uma revisão da Lancet de 2010 sobre tendinopatias achou o mesmo desenho no cotovelo: alívio de curto prazo que se inverte no médio e no longo prazo.

Quais os riscos da infiltração na coluna?

Em 23 de abril de 2014, a FDA, agência de medicamentos dos Estados Unidos, passou a exigir um alerta na bula dos corticoides injetáveis. Em casos raros, a injeção de corticoide no espaço epidural pode causar eventos graves, como perda de visão, AVC, paralisia e morte. A agência também registra que a eficácia e a segurança do corticoide por via epidural não foram estabelecidas e que ela não aprovou o corticoide pra esse uso.

Raro não quer dizer zero. Quando o benefício esperado é pequeno e curto, o risco pesa mais na conta, e essa conta é pra fazer com o médico antes do procedimento.

Quando o médico vem antes de qualquer tratamento?

Infiltração, bloqueio e cirurgia são decisões médicas. Se o seu médico indicou uma infiltração, converse com ele antes de decidir, e procure o médico antes de tudo diante destes sinais:

  • Febre junto com a dor.
  • Perda de força num braço, numa perna ou no pé.
  • Formigamento ou dormência que avança.
  • Perda de controle da urina ou das fezes.
  • Dor depois de queda, acidente ou pancada forte.
  • Dor noturna que não cede com nenhuma posição.
  • Emagrecimento sem motivo, ou histórico de câncer.

Quando cada um costuma fazer mais sentido

Infiltração
Quando o médico avalia que ela cabe num caso específico: ciática aguda e forte, pelo NICE, ou dor crônica selecionada pra radiofrequência depois de bloqueio positivo. Na dor lombar comum, na estenose de canal e como primeira opção no joelho com artrose, a evidência não sustenta. Qualquer sinal de alerta é médico primeiro.
Fisioterapia
Como primeira escolha na dor lombar comum, na artrose de joelho, no ombro com síndrome do impacto e no cotovelo de tenista, onde os ensaios mostram resultado igual ou melhor que a infiltração em um ano. Também depois de uma infiltração indicada pelo médico, pra trabalhar força e movimento.

Perguntas frequentes

Infiltração tira a dor na hora?

Muitas vezes o alívio vem rápido. Nos estudos do cotovelo de tenista e da ciática, o ganho apareceu no curto prazo e não se manteve. Alívio rápido e resultado duradouro são coisas diferentes.

Posso fazer fisioterapia depois da infiltração?

Pode, com a liberação do médico que aplicou. Conte ao fisioterapeuta a data, o local e o que foi injetado, pra ajustar a carga dos primeiros dias.

Infiltração resolve hérnia de disco?

A revisão do Annals of Internal Medicine de 2015 encontrou alívio pequeno e curto com a epidural, sem reduzir o risco de cirurgia no longo prazo. Na hérnia com ciática aguda e forte, o NICE aceita considerar a epidural; a decisão é do médico.

Quantas infiltrações posso tomar?

Quem define é o médico. No ensaio do JAMA de 2017, corticoide no joelho a cada 3 meses por 2 anos aumentou a perda de cartilagem sem aliviar mais a dor que o soro.

Bloqueio e radiofrequência são a mesma coisa que infiltração?

São procedimentos parentes. O bloqueio diagnóstico testa se um nervo pequeno da articulação da coluna é a fonte da dor, e a radiofrequência desliga esse nervo. O NICE só aceita a radiofrequência na dor lombar crônica selecionada, depois de bloqueio com resposta positiva.

O médico indicou infiltração. Devo recusar?

Não recuse sem conversar. Pergunte qual o objetivo, quanto tempo de efeito se espera, quais os riscos e se tentar exercício orientado antes faz sentido no seu caso. A decisão é sua com o médico.

De onde vem cada afirmação

  1. National Institute for Health and Care Excellence (NICE) (2016 (atualizada em 2020 e 2026)). Low back pain and sciatica in over 16s: assessment and management (NG59). NICE. Recomendações 1.2.7 e 1.3.1 a 1.3.6: terapia manual só com exercício, não oferecer injeção na coluna, radiofrequência após bloqueio positivo, epidural na ciática aguda e forte, não usar epidural na estenose.
  2. Staal, J. B. et al. (2008). Injection therapy for subacute and chronic low-back pain. Cochrane Database of Systematic Reviews. Evidência insuficiente pra apoiar injeção na dor lombar subaguda e crônica.
  3. Oliveira, C. B. et al. (2020). Epidural corticosteroid injections for lumbosacral radicular pain. Cochrane Database of Systematic Reviews. Epidural com corticoide um pouco melhor que placebo na dor da perna a curto prazo, com efeito talvez sem importância clínica.
  4. Chou, R. et al. (2015). Epidural Corticosteroid Injections for Radiculopathy and Spinal Stenosis: A Systematic Review and Meta-analysis. Annals of Internal Medicine. Benefício pequeno e não sustentado, sem efeito sobre o risco de cirurgia no longo prazo.
  5. Friedly, J. L. et al. (2014). A randomized trial of epidural glucocorticoid injections for spinal stenosis. New England Journal of Medicine. Na estenose, corticoide com anestésico não foi melhor que só anestésico em 6 semanas.
  6. McAlindon, T. E. et al. (2017). Effect of Intra-articular Triamcinolone vs Saline on Knee Cartilage Volume and Pain in Patients With Knee Osteoarthritis: A Randomized Clinical Trial. JAMA. Corticoide no joelho a cada 3 meses por 2 anos: mais perda de cartilagem, dor igual ao soro.
  7. Deyle, G. D. et al. (2020). Physical Therapy versus Glucocorticoid Injection for Osteoarthritis of the Knee. New England Journal of Medicine. Fisioterapia com menos dor e limitação em um ano que infiltração de corticoide no joelho.
  8. Rhon, D. I. et al. (2014). One-Year Outcome of Subacromial Corticosteroid Injection Compared With Manual Physical Therapy for the Management of the Unilateral Shoulder Impingement Syndrome: A Pragmatic Randomized Trial. Annals of Internal Medicine. Melhora igual em um ano no ombro; o grupo da fisioterapia usou menos serviços de saúde.
  9. Bisset, L. et al. (2006). Mobilisation with movement and exercise, corticosteroid injection, or wait and see for tennis elbow: randomised trial. BMJ. Injeção melhor em 6 semanas, com recaída frequente; fisioterapia melhor no longo prazo.
  10. Coombes, B. K. et al. (2010). Efficacy and safety of corticosteroid injections and other injections for management of tendinopathy: a systematic review of randomised controlled trials. The Lancet. No cotovelo de tenista, alívio de curto prazo do corticoide que se inverte no médio e no longo prazo.
  11. Foster, N. E. et al. (2018). Prevention and treatment of low back pain: evidence, challenges, and promising directions. The Lancet. Uso alto demais de injeção na coluna, imagem, repouso, opioide e cirurgia; primeira linha subusada.
  12. U.S. Food and Drug Administration (FDA) (2014). Comunicado de la FDA sobre la seguridad de los medicamentos: FDA requiere cambios en la etiqueta para advertir sobre problemas neurológicos graves pero poco frecuentes, tras una inyección epidural de corticosteroides para aliviar el dolor. FDA (comunicado oficial, 23/04/2014). Eventos neurológicos raros e graves após epidural com corticoide; eficácia e segurança não estabelecidas; uso não aprovado.

Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação de um profissional.

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