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Quiropraxia é perigosa? Os riscos reais do ajuste na coluna

Na maioria das vezes, não. Reações leves e passageiras, como dor no local, rigidez e dor de cabeça, são comuns depois do ajuste. Complicações graves, como AVC por lesão de artéria do pescoço ou compressão dos nervos da lombar, são raras, e a pesquisa não conseguiu provar nem descartar a manipulação como causa. Por isso as orientações internacionais pedem avaliação antes do ajuste, atrás de contraindicações e sinais de doença vascular. Com sinal de alerta, a pessoa vai primeiro ao médico.

Lado a lado

Quiropraxia é perigosa? Os riscos reais do ajuste na coluna: comparação lado a lado
CritérioEfeitos levesComplicações graves
ExemplosEfeitos leves: Aumento da dor no local, rigidez muscular, dor de cabeça.Complicações graves: AVC ligado a lesão de artéria do pescoço, síndrome da cauda equina, piora de hérnia de disco, fratura.
FrequênciaEfeitos leves: Comuns: por volta de metade das pessoas depois de terapia manual, segundo uma revisão sistemática.Complicações graves: Raras, mas mal medidas: as estimativas das revisões vão de 1 em 20 mil a 1 em 250 milhões de manipulações.
DuraçãoEfeitos leves: Passageiros. Na dor no pescoço, podem piorar o resultado de curto prazo, sem prejudicar o de longo prazo.Complicações graves: Podem deixar sequela neurológica séria.
A manipulação é a causa?Efeitos leves: Nem sempre: num ensaio feito pra medir risco, a frequência foi parecida com a da manipulação simulada.Complicações graves: Não comprovado. Parte dos casos pode ser uma lesão que já existia e levou a pessoa a procurar atendimento.
Quem tem mais riscoEfeitos leves: Na dor no pescoço, possivelmente quem tem mais incapacidade e quem recebe manipulação cervical.Complicações graves: Quem já tem uma doença por baixo: osteoporose, tumor, infecção, instabilidade entre vértebras, lesão de artéria em curso.
Onde preocupa maisEfeitos leves: Qualquer região tratada.Complicações graves: Pescoço, pelas artérias. Lombar, pelos nervos da cauda equina e pelo disco, com base em relatos de caso.
Como prevenirEfeitos leves: Saber antes o que é esperado e avisar quem atendeu se a reação for forte ou não passar.Complicações graves: Avaliação antes do ajuste: histórico, sinais de doença vascular do pescoço e lista de contraindicações.
O que fazerEfeitos leves: Contar na consulta seguinte, pra ajustar técnica e força.Complicações graves: Pronto-socorro na hora, sem nova manipulação.

O que é normal sentir depois da quiropraxia?

Dor no local, rigidez e dor de cabeça são as reações mais relatadas. Uma revisão sistemática de 2010 sobre terapia manual feita por profissionais regulamentados estimou que cerca de metade das pessoas pode ter reação leve ou moderada depois do atendimento. Uma meta-análise de 2017 no JAMA cita séries grandes de casos em que essas reações apareceram em 50% a 67% das vezes.

São reações passageiras. Uma revisão de 2017 sobre riscos da terapia manual na coluna apontou que, em quem trata dor no pescoço, elas podem piorar o resultado de curto prazo, sem mudar o de longo prazo. E num ensaio com poder estatístico pra medir risco, incluído na revisão de 2019 do BMJ, a manipulação não teve mais reações adversas do que a manipulação simulada.

Quiropraxia no pescoço pode causar AVC?

Essa é a dúvida mais séria, e a resposta tem nuance. A dissecção de artéria cervical, uma lesão na parede da artéria do pescoço, é uma das causas mais comuns de AVC em adultos jovens e de meia-idade. Estudos de caso e controle encontraram associação entre manipulação do pescoço e esse tipo de AVC em pessoas com menos de 45 anos.

O problema é separar associação de causa. A dissecção costuma começar com dor no pescoço e dor de cabeça, justamente o que leva alguém a procurar um quiropraxista. Um grande estudo canadense de 2008 encontrou aumento de risco parecido depois de consultas com médicos de família, o que aponta pra pessoas que já estavam com a artéria lesionada e buscaram ajuda pela dor. Uma meta-análise de 2016 encontrou associação pequena, com evidência de qualidade muito baixa, e nenhuma prova convincente de causa.

A Associação Americana do Coração, em 2014, concluiu que a evidência não basta pra afirmar que a manipulação causa a dissecção, mas que forças mecânicas têm papel em parte dos casos e que a pessoa deve ser informada dessa associação antes de manipular o pescoço. Em idosos de 66 a 99 anos com dor no pescoço, um estudo com mais de um milhão de pessoas achou AVC vertebrobasilar extremamente raro depois da quiropraxia.

Quiropraxia na lombar pode piorar uma hérnia de disco?

Pode acontecer, e é raro. Uma revisão de 2015 reuniu 77 casos publicados de eventos graves depois de manipulação da lombar ou da pelve, feita por vários tipos de profissional: síndrome da cauda equina foi o mais relatado, seguida de hérnia de disco, fratura e hematoma. Por serem relatos de caso isolados, os autores dizem que não dá pra afirmar que a manipulação causou esses eventos.

A OMS trata hérnia de disco com perda neurológica que avança como contraindicação absoluta à manipulação, e doença de disco grave ou dolorosa como contraindicação relativa, que pede técnicas sem força e sem impulso rápido. Perda de força na perna, dormência na região íntima ou perda de controle da urina ou das fezes é emergência médica.

Quem não deve fazer quiropraxia?

O documento da OMS sobre segurança da quiropraxia lista as contraindicações absolutas à manipulação da coluna, na região afetada. Algumas das principais:

  • Fratura recente ou vértebra deslocada.
  • Tumor, câncer ou infecção na coluna.
  • Instabilidade entre vértebras, inclusive a do topo do pescoço.
  • Hérnia de disco com perda neurológica que avança e síndrome da cauda equina.
  • Artrite inflamatória com frouxidão de ligamento na região, como em alguns casos de artrite reumatoide.
  • Placas, parafusos ou hastes na coluna: nada de manipulação óssea no local, só tecidos moles.
  • Com cuidado redobrado (contraindicação relativa): osteoporose, uso prolongado de corticoide, AVC prévio ou sinais de insuficiência da circulação das artérias do pescoço.

O que uma boa avaliação antes do ajuste precisa ter?

A federação internacional de fisioterapeutas de terapia manual (IFOMPT) publicou em 2023 um roteiro pra examinar o pescoço antes de qualquer técnica, atrás de sinais de doença vascular. A ideia central é que esses quadros são raros, mas dá pra reconhecê-los quando as perguntas certas são feitas e o exame é adaptado.

Na prática, antes do primeiro ajuste é esperado ouvir perguntas como estas:

  • A dor de cabeça ou no pescoço é diferente de tudo que já sentiu, ou começou de repente?
  • Houve queda, acidente ou trauma recente?
  • Já teve AVC, tem osteoporose ou usa corticoide há muito tempo?
  • Tem ou teve câncer, febre ou emagrecimento sem motivo?
  • Tem placas ou parafusos na coluna?
  • Sente formigamento que avança, perda de força ou alteração na urina?

Quando cada um costuma fazer mais sentido

Efeitos leves
Esperados em boa parte das pessoas: dor no local, rigidez ou dor de cabeça que passam. Não são sinal de que algo deu errado, mas vale contar na consulta seguinte pra ajustar força e técnica. Se a dor aumentar muito ou não ceder, fale com quem atendeu antes de voltar.
Complicações graves
Raras, mas pedem pronto-socorro na hora: dor de cabeça forte e diferente, de um lado só, com dor na nuca; alteração de visão, fala enrolada, tontura forte, fraqueza ou dormência de um lado do corpo; zumbido pulsátil; perda de força nas pernas, dormência na região íntima ou perda de controle da urina ou das fezes.

Perguntas frequentes

Idoso pode fazer quiropraxia?

Pode, com avaliação. Uma revisão de 2017 não encontrou maior risco de lesão traumática em idosos tratados com terapia manual do que em idosos que foram ao médico pelo mesmo tipo de queixa, mas algumas doenças de base aumentam o risco. Osteoporose e uso prolongado de corticoide pedem técnicas de baixa força, pela chance de fratura.

Criança pode fazer quiropraxia?

Reações leves também são relatadas em crianças, e há casos graves publicados. Na cólica do bebê, a revisão Cochrane concluiu que os dados são poucos demais pra qualquer conclusão sobre segurança, e o efeito no choro não se sustentou quando os pais não sabiam do tratamento. Queixa de bebê e criança passa primeiro pelo pediatra.

Quiropraxia feita por fisioterapeuta é mais segura?

Os estudos de risco reúnem profissionais de várias formações e não permitem dizer quem é mais seguro. O que muda com o fisioterapeuta registrado é a responsabilidade: ele responde ao CREFITO e ao Código de Ética da Fisioterapia, que obriga a explicar diagnóstico, objetivos e procedimentos antes de tratar. Quem não é fisioterapeuta não tem conselho que fiscalize.

Existe quiropraxia sem estalo?

Existe. O documento da OMS indica técnicas de baixa força e de tecidos moles como escolha nas situações de contraindicação relativa, como osteoporose ou doença de disco dolorosa. O estalo não é o objetivo do ajuste, e parte das técnicas nem produz o som.

Estalar o pescoço sozinho é perigoso?

Os estudos citados nesta página tratam de manipulação feita por profissionais, depois de avaliação. O hábito de estalar sozinho, puxando o pescoço com as mãos, é outro assunto, explicado no artigo sobre estalar a coluna.

Posso fazer quiropraxia depois de uma queda ou acidente?

Primeiro o médico. Dor depois de trauma pede investigação de fratura e de lesão de ligamento. Pela OMS, fratura e instabilidade são contraindicações absolutas, e mesmo sem elas quem sofreu trauma precisa de exame cuidadoso antes de qualquer manipulação.

O quiropraxista tem que explicar os riscos antes?

Deve. A Associação Americana do Coração recomenda informar a associação entre manipulação e lesão de artéria antes de manipular o pescoço, e a revisão de 2017 sobre riscos reforça que a pessoa precisa conhecer os riscos no consentimento. Pro fisioterapeuta, o Código de Ética obriga a informar condutas e procedimentos.

De onde vem cada afirmação

  1. Carnes, D., Mars, T. S., Mullinger, B., Froud, R. & Underwood, M. (2010). Adverse events and manual therapy: A systematic review. Manual Therapy, 15(4), 355-363. Cerca de metade das pessoas pode ter reação leve ou moderada depois de terapia manual feita por profissional regulamentado; eventos graves raros.
  2. Paige, N. M., Miake-Lye, I. M., Booth, M. S. et al. (2017). Association of Spinal Manipulative Therapy With Clinical Benefit and Harm for Acute Low Back Pain: Systematic Review and Meta-analysis. JAMA, 317(14), 1451. Reações leves e passageiras (mais dor, rigidez, dor de cabeça) em 50% a 67% das vezes em grandes séries de casos; nenhum ensaio relatou evento grave.
  3. Rubinstein, S. M., de Zoete, A., van Middelkoop, M. et al. (2019). Benefits and harms of spinal manipulative therapy for the treatment of chronic low back pain: systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 364, l689. Reações em geral musculoesqueléticas, passageiras e leves a moderadas; num ensaio com poder pra medir risco, sem aumento em relação à manipulação simulada.
  4. Swait, G. & Finch, R. (2017). What are the risks of manual treatment of the spine? A scoping review for clinicians. Chiropractic & Manual Therapies, 25, 37. Reações leves comuns em adultos e crianças, sem piora de longo prazo na dor no pescoço; eventos graves raros; associação com AVC abaixo de 45 anos sem causa definida; idosos sem risco maior de lesão traumática; riscos devem entrar no consentimento.
  5. Nielsen, S. M., Tarp, S., Christensen, R., Bliddal, H., Klokker, L. & Henriksen, M. (2017). The risk associated with spinal manipulation: an overview of reviews. Systematic Reviews, 6, 64. Estimativas de eventos graves de 1 em 20 mil a 1 em 250 milhões de manipulações; tipos de evento relatados mostram que algum risco existe.
  6. Cassidy, J. D., Boyle, E., Côté, P. et al. (2008). Risk of Vertebrobasilar Stroke and Chiropractic Care: Results of a Population-Based Case-Control and Case-Crossover Study. Spine, 33(4 Suppl), S176-S183. AVC vertebrobasilar muito raro; aumento de risco parecido depois de consultas com quiropraxista e com médico de família, provavelmente por pessoas com dissecção buscando ajuda pela dor.
  7. Church, E. W., Sieg, E. P., Zalatimo, O. et al. (2016). Systematic Review and Meta-analysis of Chiropractic Care and Cervical Artery Dissection: No Evidence for Causation. Cureus, 8(2), e498. Associação pequena entre manipulação cervical e dissecção, evidência de qualidade muito baixa, sem prova convincente de causa.
  8. Biller, J., Sacco, R. L., Albuquerque, F. C. et al. (American Heart Association / American Stroke Association) (2014). Cervical Arterial Dissections and Association With Cervical Manipulative Therapy. Stroke, 45(10), 3155-3174. Dissecção cervical como causa importante de AVC em jovens; evidência insuficiente pra afirmar causa pela manipulação; sintomas de alerta; recomendação de informar a pessoa antes de manipular o pescoço.
  9. Whedon, J. M., Song, Y., Mackenzie, T. A. et al. (2015). Risk of Stroke After Chiropractic Spinal Manipulation in Medicare B Beneficiaries Aged 66 to 99 Years With Neck Pain. Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics, 38(2), 93-101. Em mais de um milhão de idosos com dor no pescoço, AVC vertebrobasilar extremamente raro depois da quiropraxia.
  10. Hebert, J. J., Stomski, N. J., French, S. D. & Rubinstein, S. M. (2015). Serious Adverse Events and Spinal Manipulative Therapy of the Low Back Region: A Systematic Review of Cases. Journal of Manipulative and Physiological Therapeutics, 38(9), 677-691. 77 casos publicados de eventos graves após manipulação lombar ou pélvica (cauda equina, hérnia, fratura, hematoma); relatos isolados não permitem afirmar causa.
  11. World Health Organization (2005). WHO guidelines on basic training and safety in chiropractic. Organização Mundial da Saúde, Genebra. Contraindicações absolutas e relativas à manipulação e indicação de técnicas de baixa força e tecidos moles nas relativas.
  12. Rushton, A., Carlesso, L. C., Flynn, T. et al. (2023). International Framework for Examination of the Cervical Region for Potential of Vascular Pathologies of the Neck Prior to Musculoskeletal Intervention: International IFOMPT Cervical Framework. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 53(1), 7-22. Roteiro internacional pra examinar o pescoço antes de intervir, atrás de sinais de doença vascular: raros, mas reconhecíveis com as perguntas e o exame certos.
  13. Dobson, D., Lucassen, P. L. B. J., Miller, J. J., Vlieger, A. M., Prescott, P. & Lewith, G. (2012). Manipulative therapies for infantile colic. Cochrane Database of Systematic Reviews. Dados insuficientes pra concluir sobre segurança em bebês; efeito no choro sem significância quando os pais não sabiam do tratamento.
  14. Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) (2013). Resolução COFFITO nº 424, de 8 de julho de 2013: Código de Ética e Deontologia da Fisioterapia. COFFITO. Dever do fisioterapeuta de informar diagnóstico, prognóstico, objetivos, condutas e procedimentos.
  15. Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) (2016). Nota de esclarecimento sobre a Resolução COFFITO nº 220/2001 (quiropraxia). COFFITO (nota sem data; arquivo publicado no site em julho de 2016). Quem exerce quiropraxia sem ser fisioterapeuta não é fiscalizado pelo CREFITO e responde pelas leis civis e penais.

Conteúdo informativo. Não substitui a avaliação de um profissional.

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